Cosméticos x Olhos

Cosméticos oculares são usados mundialmente e estão presentes desde tempos muito antigos, como no Egito. Seu uso foi historicamente justificado por questões religiosas, médicas ou estéticas. Atualmente, mais de 50% das mulheres afirmam usar cosméticos como adorno estético. Produtos indicados como faciais, como creme hidratantes, podem ser aplicados próximos aos olhos e os próprios cosméticos indicados pra a área dos olhos, podem acabar tendo um real contato com a superfície ocular, condição comumente observada na rotina do consultório oftalmológico. Pequenas partículas, pigmentos, óleos, podem ser observados suspensos no filme lacrimal.

A típica flora ocular comensal (Haemophilus sp, Staphylococcus sp, Corynebacterium sp, Pneumococus sp e Streptococus sp) pode multiplicar com o uso de cosméticos e causar infecções oculares. Após três meses de uso, a presença de microorganismos em alta concentração foi encontrada em mais de 30% dos rimeis. Maquiagens usadas com aplicadores (pincéis/esponjas) podem reter suor, sebo, células mortas que são transferidas da pele para os aplicadores, facilitando a contaminação em contato com os olhos.

Traumas corneanos causados por aplicadores são comuns. Já foi documentado um caso de infecção por secundária ao uso de cosmético diluído em água de torneira. Cosméticos que podem apresentar metais, como chumbo (kajal) ou mesmo cádmio, podem ser absorvidos e apresentarem uma concentração sanguínea significativa induzindo a baixos níveis de hemoglobina. Apesar de não ter sido demonstrado em humanos, pesquisas em animais demonstraram o cádmio como indutor de lesão das células endoteliais da córnea e também da inibição da migração epitelial após uma injúria.

A incidência alergias oculares devido à exposição a cosméticos é de 4% a 12% – boa parte por conta de perfumes e conservantes presentes nestas substâncias. A pigmentação da conjuntiva e da pele periocular por uso prolongado de rímel, lápis de olho, e casos mais sérios por uso de kajal, causando obstrução do conduto lacrimonasal, também foram reportados.

O delineador pode induzir alteração de até 4ºC na fisiologia de certas glândulas e alterar a viscosidade oleosa da secreção que produzem, influenciando na estabilidade do filme lacrimal. Cada vez mais estudos sugerem que cosméticos podem ser a causa da desestabilização do filme lacrimal, bem como os conservantes usados nestas substâncias.

Cosméticos ocularesProdutos usados para retirar maquiagem podem ainda aumentar a evaporação da lágrima e diminuir a estabilidade do filme lacrimal. Dentre estes produtos, os que são a base de óleo, usados para maquiagem à prova d’água, são os de ação mais negativa.

Pessoas que usam cosméticos com frequência apresentam uma sensação maior de desconforto ocular. A prevalência de sintomas de olho seco tem aumentado e tem sido observada uma associação com o uso de cosméticos e soluções de higiene desses produtos.

Um estudo no Japão comprovou que o uso de colírios em pessoas que fazem uso de cosméticos facilita a migração de cosméticos para dentro da superfície ocular. Quando o uso de colírios se faz necessário, é aconselhável o uso desses antes de aplicar a maquiagem ou os cremes.

RECOMENDAÇÕES

1. REMOVER A MAQUIAGEM ANTES DE DORMIR.
Todas as maquiagens devem ser removidas diariamente, pois, o acúmulo de produtos e da própria oleosidade da pele na borda das pálpebras causa inflamação e alteração da própria lágrima. Utilize sabonete neutro para a retirada completa dos produtos e do próprio removedor de maquiagem, que também conta com resíduos e aumenta a oleosidade local.

2. VERIFICAR A PROCEDÊNCIA DOS ITENS.
Antes de adquirir qualquer produto, deve-se pesquisar se ele é aprovado pelos órgãos nacionais responsáveis, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Não utilize produtos de origem desconhecida ou de procedência duvidosa.

3. NÃO DIVIDIR OU EMPRESTAR A MAQUIAGEM.
Grande parte das contaminações dos produtos relacionadas à maquiagem acontece pelo compartilhamento de produtos. Quando o produto fica contamindado, ele pode transmitir doenças infectocontagiosas para todos que o utilizarem. Não se recomenda compartilhar produtos que entram em contato com a lágrima (como lápis de olho e o rímel, por exemplo).

4. CUIDADOS NO USO DE PRODUTOS NA PARTE INTERNA DAS PÁLPEBRAS.
Tome cuidado nas estruturas delicadas do olho na hora de usar produtos de maquiagem. O lápis de olho deve ser usado suavemente, tomando cuidados para não deixar resíduos na parte interna da pálpebra. O rímel não deve ser usado em excesso. O mais importante é a retirada do produto antes de dormir.

5. ARMAZENAR EM UM LOCAL APROPRIADO.
O ambiente deve ser fresco e seco. Lugares úmidos e sujos podem aumentar a proliferação de microorganismos, como os fungos, e tornar os produtos impróprios para uso. Realize a limpeza e a higienização dos pincéis de sombra após o uso com produtos específicos.

6. RECOMENDA-SE COLOCAR AS LENTES DE CONTATO ANTES DE SE MAQUIAR.
Para diminuir o risco de produtos de maquiagem ficarem entre a lente de lente de contato e a córnea, recomenda-se colocar a lente de contato de cinco à dez minutos antes de aplicar a maquiagem.

7. CONSULTA OFTALMOLÓGICA DE ROTINA PELO MENOS UMA VEZ AO ANO.
É conveniente consultar seu oftalmologista para explicação detalhada do processo de limpeza. A limpeza mal feita também pode causar danos às estruturas oculares.

Adaptado de artigo escrito por Brenda Biagio Chiacchio e Richard Yudi Hida, para a Revista Em Foco.