Medicações de uso sistêmico x Córnea

Medicações utilizadas para tratamento das mais diversas patologias sistêmicas podem afetar as diferentes camadas da córnea e prejudicar a visão. Desta forma, pacientes que fazem uso de certas medicações devem ser monitorados cuidadosamente para evitar complicações crônicas e até toxicidade ocular.

Medicações sistêmicas podem atingir a córnea através do filme lacrimal, humor aquoso e vasos limbares, e impactar diretamente na homeostase corneana. “Homeostase” é o estado saudável de funcionamento da córnea e da superfície ocular, com auto-ajuste nos mecanismos bioquímicos e fisiológicos.

No olho seco, por exemplo, temos uma condição no qual a homeostase do filme lacrimal é perdida levando a superfície ocular à inflamação e dano. Certos remédicos sabidamente causam olho seco. Nos EUA, entre as 100 medicações mais vendidas, 22 são sabidamente causadoras de ressecamento ocular. Uma estimativa de 62% dos casos de ressecamento ocular nos idosos podem ser atribuídos ao uso de medicações sistêmicas, incluindo anti-inflamatórios não-esteroidais, diuréticos, vasodilatadores, analgésicos/antipiréticos, antiácidos utilizados para gastrite/úlceras, sulfonilureias, glicosídeos cardíacos, ansiolíticos/benzodiazepínicos, antibióticos, antidepressivos/antipsicóticos, anti-hipertensivos e anti-histamínicos.

Toxidade advinda dos medicamentos pode também alterar a delicada homeostase das células tronco (células limbares da córnea), levando à uma deficiência crônica destas células. Outro número de medicações pode induzir alterações no epitélio corneano (camada mais externa da córnea), caracterizadas por depósitos que ocasionam ceratite punctata, opacidades, precipitados cristalinos, que podem afetar e reduzir a visão.

Pacientes em tratamentos quimioterápicos necessitam também serem monitorados uma vez que estes agentes também podem ocasionar danos às células da córnea. Assim, qualquer paciente que esteja em tratamento sistêmico para qualquer doença deve procurar um oftalmologista e fazer “check-ups” regulares, mesmo não apresentando queixas visuais. A palavra-chave nestes casos é a prevenção!

Adaptação e tradução: Dra. Taíse Tognon, fonte: Dr. Mohamed Elalfy, oftalmologista do Hospital Queen Victoria (Reino Unido), durante sua participação no 10 o. Encontro Europeu de Córnea.